Raízes 88

Por Cida Abreu

A colonização escravista através dos navios negreiros que cruzaram o atlântico e o pacífico imputaram os valores e os limites à condição humana e cultural da nação e descendência africana no mundo. Condicionou aos afro-brasileiros, assim como a toda a descendência africana sem trégua e opção, à prova, pela identidade sociocultural, na luta da resistência pela liberdade e a resiliência coletiva. O legado da escravidão impera no século XXI, consequências palpáveis em nosso cotidiano social.

Na américa nós descendentes afro brasileiros incorporamos a cultura africana de forma física, enquanto diferentemente de nós, a Europa ocidental recebeu a cultura africana após anos de convivência com ela. Esta constatação, para início de conversa, nos permite partir do princípio que, é necessário reconhecer do ponto de vista identitário que, o Brasil é indubitavelmente descendente da presença africana na formação estrutural da sua nação, assim como a espinha dorsal está na sustentação de um corpo humano. 

A população afro-brasileira é signatária de uma jornada vital dos povos africanos e indígenas. Herdeira de trajetórias que o sistema escravocrata propôs apagar e o racismo se propõe torná-las invisíveis e irrelevantes.  Sem o poder de anular a existência histórica dos grandes reinos africanos e das tribos indígenas antes da escravidão, mesmo o colonizador tentando, as estruturas culturais africanas e indígenas resistem e se tornaram inabaláveis, nos dando a oportunidade de hoje no século XXI denunciar o subproduto da escravidão, que é o racismo, o mecanismo negacionista à existência de dois povos em uma nação.  

Constatações da ciência através de pesquisas afirmam que, entre os séculos XVI e XIX o Brasil movimentou em seus portos um número superior a quatro, cinco ou um número indefinido de milhões, de negros africanos que foram deportados para o nosso país pelo tráfico de escravos. Exatamente ousamos dizer quantos foram, mas ninguém sabe ao certo, podemos sim afirmar que, em 300 anos de escravidão a descendência de africanos brasileiros que somam a maior população negra fora da África são suficientes para a denúncia do peso e das consequências da escravidão.

Não diferente aconteceu com os indígenas. Negam que, quando chegaram no Brasil os brancos colonizadores, as tribos já habitavam o território, estruturaram a hipótese da dúvida em sua capacidade científica, laboral e intelectual. Reduzem sua importância populacional representativa, anulando a sua inegável contribuição na construção e estruturação da identidade cultural brasileira, resumindo nos livros históricos e didáticos sua adesão a colonização eclesial e a negação a sua cultura ancestral e linguística, sem contar que nossos parentes não tiveram outra opção a não ser resistir em silêncio e de forma invisível.

É cientificamente comprovado que a estratégia política para dominar a força de uma nação é retirar da sua prática o pertencimento linguístico e cultural, tratamos aqui de duas etnias a africana e a indígena que, violentamente foram e são profundamente impactadas por esta prática, pela apropriação do homem do olho azul e a negação das etnias enquanto tendência cultural brasileira.

O Brasil é o país mais negro fora do continente africano segundo dados do Instituto Brasileiro de Geográfica e Estatística (IBGE). Segundo o último censo de 2010 50,7% da população brasileira se declara preto e parda (cera de 97 milhões de pessoas).  A população indígena, os  primeiros habitantes brasileiros, declara o censo que (somam cerca de 896.917) destes 57,7% vivem em terras indígenas oficialmente reconhecidas. Duas etnias que somam a maioria populacional brasileira (cerca de 97.896.917) são marcadas pela escravidão, pelos mecanismos da colonização e submetida ao racismo, ocupando o lugar da invisibilidade e da desigualdade, restrita ao pleno acesso à direitos constitucionais e institucionais, em relação a população branca, a minoria populacional, que somam (cerca de 91 milhões de pessoas). Nos ateremos no quesito raça /cor em negro, parda, índio e branco, ressaltando que há um quantitativo populacional considerado pelo Instituto Brasileiro de Geográfica e Estatística que são os amarelos que segundo o censo de 2010 somam 1,5% da população brasileira.

Lamentavelmente para alguns públicos sociais, a despeito da tortura, das humilhações, das perseguições, do racismo em variados formatos e sofisticação, negros e índios seguros pela sua pertença cultural, resistem a tudo e ao inimaginável, surpreendendo com saltos (sociais, culturais, políticos e econômicos) depois da vitória de cada batalha em busca da solidez da igualdade racial e do bem estar para todos, que tem esse direito garantido na Constituição Federal Brasileira.

Os brancos colonizadores Europeus e sua descendência, com a negação da existência de pretos, pardos e índios, na colaboração sociocultural do Brasil, causaram danos psicossocial nesta população, que foram agravados ainda mais neste cenário quando, se evita ensinar a história e a organização dos reinos africanos, sua colaboração no avanço da tecnologia, e a omissão comprovada pela arqueologia da africanidade das fórmulas matemáticas, como a famosa  de Pitágoras, que foram originárias de cópias egípcias, que ocorreram durante as viagens de  exploração de novas descobertas ocorridas no continente africano (será possível com a implementação da lei 11.465/2008 que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena). A autoestima de uma etnia ou de uma nação é sustentada pelo coletivo protagonismo das suas referências.  

Certamente carecemos de um sério investimento em estudos etnográficos de práticas culturais comparadas para que, os brasileiros possam identificar-se, se reconhecerem e aceitarem a presença africana e indígena na estruturação e no desenvolvimento do país ao longo de todo o seu território continental. Este exercício promoverá o desenvolvimento e a conciliação dos brasileiros com a sua verdadeira história, sua cultura seus atributos e imperfeições, assim conseguiremos curar feridas abertas pela colonização escravista, deletar status da desigualdade e da violência, assim teremos condições de rescrever a história. 

Há diversos setores da superestrutura brasileira responsáveis pela condição da miséria humana, social e econômica da etnia negra e indígena. A mídia e os poderes constituídos são exemplos, não se deram conta de como equilibrar os problemas socioeconômicos em nosso país, pois nunca consideraram a profundidade da crise sociocultural que enfrentamos a séculos e que, vem refletindo e afetando o funcionamento socioeconômico brasileiro e consequentemente a capacidade do desenvolvimento do país e do desenvolvimento humano integrado, proeza que só conseguiremos atingir com a população brasileira sendo preparada para grandes desafios, utilizando as políticas públicas e os veículos de comunicação de rádio, tv, as mídias digitais e as redes sociais em série, com disponibilidade de dados de internet gratuito que, conjuntamente possam promover um crescimento socioeconômico participativo, duradouro e sustentável.

É inegociável e necessário garantir os espaços de debates que já existem em todas as esferas e instâncias, mas é fundamental que surjam novos espaços institucionais e sociais, com modelos e formatos modernos e eficientes para uma narrativa de diálogo informativo da população brasileira. Como nunca deve-se desfrutar da impar diversidade ambiental e cultural que possuímos, para sermos capazes de burlar a crise identitária, representativa e institucional que vivemos, para assim reunirmos condições para construir os princípios para o desenvolvimento sem erros.

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