Raízes 88

Por Diana Bueno

Em um contexto de crescente intolerância religiosa no Brasil e dada a importância do pentecostalismo para a população negra, a relação entre fiéis negros e sua igreja torna-se um tema importante a ser tratado, embora seja pouco estudado e ainda mal delimitado por vários campos da academia e órgãos de pesquisa, principalmente quando se faz um recorte para as mulheres pretas; maioria do total de fiéis.

Segundo pesquisa Datafolha, divulgada pelo jornal Folha de São Paulo, em janeiro de 2020, o público feminino corresponde a 58% dos frequentadores de igrejas evangélicas e pretos e pardos também são maioria, com 59% dos fiéis. 

Já se pensar com relação a gênero e raça, a pesquisa demonstrou que 43% se identificam como pardas e 16% como pretas. As brancas são 30%, segunda maior porcentagem, e as mulheres amarelas e indígenas aparecem com 3% e 2%, respectivamente. Indo um pouco mais fundo, a pesquisa mostrou que as igrejas neopentecostais possuem uma participação ainda maior das mulheres: elas são 69% do total dos fiéis. 

Como eu já disse anteriormente, mulheres negras são a maioria dentro das igrejas, embora nos espaços de poder imperem homens brancos. Então por que tantas mulheres negras, atingidas pelo racismo, pelo machismo e por outras opressões, estão nessas igrejas?

A antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, doutora em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da USP pode ajudar nos ajudar na busca por essa resposta. Recentemente ela mergulhou em alguns projetos voltados para as questões de gênero e direitos reprodutivos dentro da Igreja Universal do Reino de Deus e que também atingem questões raciais.

“Projetos na Igreja Universal estimulam empreendedorismo feminino e “domesticação” dos homens. Lá, as mulheres negras mesmo não sendo reconhecidas como pastoras ou bispas, movimentam todos os projetos de gênero, que são os mais importantes”, explica ela. Isso vai de encontro com uma entrevista que cedi ao site “Mulherias”, do UOL, no ano passado. Nela, citei que 38% das mulheres evangélicas se declararam feministas, segunda a pesquisa Data Folha de 2019. Em sua pesquisa, Jacqueline encontrou um fato interessante sobre isso: 

“Meninas mais jovens têm a necessidade de se denominar feministas mesmo dentro da Universal, mas a questão é como isso será reconhecido pela liderança (majoritariamente masculina), afirma a antropóloga.

Outro fato, que é necessário trazer aqui é a violência contra a mulher evangélica. “Durante minha pesquisa um dos projetos que eu estudei foi o atendimento de mulheres em situação de violência da Universal desde 2011. O foco é no atendimento jurídico e psicológico a quem não tem condições de pagar, além de cursos de cura emocional para mulheres vítimas de violência”, contou ela.

E por mais inacreditável que isso possa ser dado publicado no site Geledés, mostra que 40% das mulheres, que declararam ter sofrido violência física ou verbal de maridos foram de evangélicas; esse foi o resultado de uma pesquisa publicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. E apesar da pesquisa não trazer um recorte negro, já dá para imaginar que a mulher negra está incluída neste grupo, uma vez que 1,5 milhão de mulheres negras são vítimas de violência doméstica no Brasil.

Sobre a questão do racismo, infelizmente também é bastante presente nessas instituições cristãs, mas na última década tem sido combatida, principalmente por meio de outra linha evangélica, a progressista. Igrejas como a Igreja Batista da Água Branca tem trabalhos específicos onde mulheres estão à frente, um deles inclusive tem o nome de Forum de Consciência Negra (FCN), há também o Movimento Negro Evangélico, Frente Evangélica pelo estado de Direito, Rede Evangélica de Mulheres Negras, Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil (liderado em sua maioria por mulheres pretas) e Cristãs e Cristãos Contra o Fascismo. 

Obviamente que com esse artigo o objetivo não é negar ou ignorar as implicações que o crescimento do cristianismo evangélico fundamentalista traz ao país e também às religiões afro, mas sim, trazer à luz quem são essas mulheres pretas, o que sofrem, dados e onde estão atuando.

Outra motivação para escrever foi perceber que essa é uma religião seguida por um a cada três brasileiros – especialmente pretos e pobres e principalmente: porque esse é um assunto não muito abordado e nos dias em que estamos vivendo hoje, acredito ser importante começar a entender quem são essas pessoas, onde vivem e o que querem.

Diana Bueno é editora de política, formada em jornalismo e ativista. Faz parte do Raízes, também é Coordenadora Nacional da Cristãs e Cristãos Contra o Fascismo e integra o Mulheres Contra Bolsonaro #Elenão.

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