Raízes 88

Por Naressa Klenda

De acordo com o CNJ (Brasil) (2015) podemos compreender como racismo o preconceito ou discriminação destinado a um grupo de indivíduos “discriminando toda a integralidade de uma raça”. A injúria racial “consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem”. Na Psicologia podemos analisar o racismo e a injúria racial dentro dos conceitos de preconceito, estereótipo e discriminação. Muitos autores de Psicologia Social gostam de separar os conceitos de preconceito, estereótipo e discriminação, para uma melhor compreensão. Assim como para Lane e Codo (2006), o preconceito se configura como uma atitude negativa dirigida a um grupo e aos que dele fazem parte. É possível fazer uma relação com o conceito de racismo, no qual se mostra de forma ampla e que pode atingir diversos grupos minoritários, não somente os negros, mas, também, indígenas, judeus, asiáticos, mexicanos etc. O conceito de estereótipo, que é conhecido como a base cognitiva do preconceito, para a Psicologia, são as opiniões sobre traços caracterizantes que se atribui a pessoas ou grupos, onde se atribui certos aspectos específicos. Pode-se entender a partir da compreensão do autor que o processo de formação de estereótipos se faz como uma concepção cognitiva de um grupo social e de seus membros com tendência a enfatizar o que há de parecido entre as pessoas, e a agir de acordo com essa assimilação. Um exemplo de estereótipo criado e muito usado direcionado para pessoas negras, e com grandes marcas racistas, onde pessoas negras dentro de lojas de shoppings e afins são “confundidas” com funcionários que estão ali para servir.

Sim, do negro se exige que seja um bom negro; posto isso, o resto vem por si só. Fazê-lo falar petit-nègre é acorrentá-lo à sua imagem, enredá-lo, aprisioná-lo, vítima eterna de uma essência, de uma aparência pela qual ele não é responsável. E, obviamente, assim como um judeu que gasta dinheiro sem fazer as contas é suspeito, o negro que cita Montesquieu deve ser vigiado.

(Fanon, Frantz. Pele negra, máscaras brancas (p. 33). Ubu Editora. Edição do Kindle)

Há ainda o conceito de rotulação, que se configura próximo ao de estereótipo; em que há a criação de expectativas quanto ao que o outro seja, aja de determinada maneira, se poste de certa forma, a partir de uma visão subjetiva que se cria do outro, como por exemplo, rotular que todas as mulheres negras sabe sambar, pelo fato de serem negras e o samba vir da cultura negra. Por fim, há a discriminação, que se configura como a parte da ação da atitude preconceituosa. É o ato de proferir expressões verbais agressivas, ações inamistosas, diretas para quem se tem o preconceito e o estereótipo, o que é facilmente exemplificado, quando em jogos de futebol, jogares negros são vítimas de frases de cunho agressivo e preconceituoso por torcedores de times rivais, e atitudes como jogarem bananas em campo para fazer alusão a comparação feita durante anos de que pessoas negras era semelhante a macacos.

Como dissemos, existem negrófobos. Mas não é o ódio ao negro que os impele; eles não têm essa coragem, ou não a têm mais. O ódio não está dado, precisa ser conquistado a todo instante, precisa ser alçado ao ser, em conflito com complexos de culpa mais ou menos assumidos. O ódio pede para existir e aquele que odeia deve manifestar esse ódio por meio de atos, de um comportamento adequado; em certo sentido, deve tornar-se ódio.

(Fanon, Frantz. Pele negra, máscaras brancas (p. 47). Ubu Editora. Edição do Kindle)

Ainda consoante com Lane e Codo (2006), preconceito possui quatro possíveis causas. (1) Competição e conflitos políticos e econômicos; onde negros estão, na maioria das vezes, em um status social inferior ao dos brancos; (2) O papel do “bode expiatório”; onde a maior pressão sofrida, são por grupos declarados minorias, mais fracos e mais facilmente localizados; (3) Fatores de personalidade; uma pessoa não nasce racista, ela é ensinada a agir dessa forma, a educação como fator predominante para formar a personalidade e logo a pessoa a agir de determinada forma preconceituosa; (4) Causas sociais: aprendizagem social, conformidade e categorização social; o preconceito é edificado na sociedade e mantido culturalmente, é um comodismo, algo que de tanto conviver, se torna intrínseco.

Algumas perguntas que cabem nesse texto e que podem servir como ponto de partida para reflexão sobre a temática saúde mental relacionada com a população negra são: as pessoas negras conseguem compreender o que é saúde mental e a sua importância? As pessoas negras conseguem ter acesso ao serviço de saúde mental? A empatia oferecida por profissionais de psicologia é necessária para compreender os processos de identidade e a problemática enfrentada por pessoas negras no cotidiano racista brasileiro? Existe diferença entre a psicoterapia para pessoas brancas e para pessoas negras, levando em consideração as suas respectivas histórias de ancestralidade? Por que não é ensinado para pessoas negras que a sua saúde mental é importante? Perguntas essas que podem ser respondidas a partir de uma visão intersetorial e com um olhar crítico sobre como a maneira que muitos profissionais de psicologia atuam, quais as suas influências e se são capazes de compreender que somente uma pequena parcela foi intitulada como privilegiada, de maneira velada, para ser acolhida e assistida no que tange ao atendimento psicológico e cuidado com a saúde mental, ou seja, a “branquitude”.

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